a única ponte que separava as cidades parecia balançar com o vento. ela era feita de concreto, uma fundação de décadas em contato com o fundo mais profundo do mar cortante, as poucas cordas metálicas ainda penduradas ao céu restavam como sobreviventes àqueles terremotos estranhos. para quem morava ali, separados de todo o resto, o horizonte parecia aterrorizante, de longe se viam os grandes cogumelos de fumaça surgindo num instante e lentamente dissipando, eles demoravam para sumir e tinha dias que o céu estava repleto deles.
matteo passava suas tardes e noites sentado naquela areia cinzenta. as ondas traziam quase tudo, entulhos apareciam dia sim dia não e as cinzas eram constantes, as chuvas noturnas que costumavam ser o frescor da manhã agora carregavam o peso de carcaças desconhecidas. a janela de matteo acordava com respingos estranhos em tons avermelhados e amarronzados, demorou muito tempo para que ele percebesse que eram os restos das pessoas do outro lado da ponte.
a ventura de morar em civita di bagnoregio consistia unicamente em estar isolados no meio do oceano com apenas uma ponte de ligação, essa que passava a maior parte do seu tempo coberta por profundidades intensas de água. o país inteiro estava em guerra, sendo consumido por fogo e explosões intermináveis, a esperança de um fim não se aproximava e a previsão era de que somente restasse cinzas e ossos, a ganância consumia uma nação inteira.
a cidade que morre era um apelido para esse povo que se perdia em meio às águas. matteo não entendia o porquê de sempre serem colocados assim, ainda mais agora que morrer pelo mar era o que estava salvando cada um deles. as bombas dificilmente chegavam na encosta, derrubaram pedaços da ponte e fizeram tremores derrubar alguns pequenos prédios, mas as pessoas continuavam em pé e as mesas tinham comidas saborosas todos os dias.
matteo escreveu com os próprios dedos na praia de cinzas: “a cidade que vive.”
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