quarta-feira, 13 de maio de 2026

sentimentos vazios

ter dias em que as emoções não aparecem é complicado, parece que estou encarando o mundo com uma sensação estranha... quer dizer, é quase que sensação nenhuma e isso me sufoca. 


eu gosto dos dias que estou feliz, quase sempre estou assim. exceto pelos dias como hoje, em que eu não consigo sentir quase nada (só uma pequena pontada no coração que nunca se desfaz, tenho o sentimento de que é realmente um auto-sufocamento por razão nenhuma, só acontece) e não tem muito o que fazer sobre isso além de aceitar até que passe.


as vezes não passa, fico com esse aperto por um ou dois dias além do normal (que costuma ser um dia só) me seguindo, deixando tudo sem gosto e nada divertido. talvez eu tenha cansado um pouco. acho que cansei, sim.


na verdade, eu não saberia explicar do que eu cansei porque não tenho feito nada. eu deito na cama e procuro alguma coisa para assistir, me distrair, até ler algo poderia melhorar a situação, mas nada me desce. tudo fica preso na garganta. então desligo tudo e deixo o sono aparecer quando ele bem entender.


o que me gera um problema desgastante. eu preciso encarar o tédio e por encarar o tédio é que os pensamentos estranhos acontecem. eu posso silenciar eles com barulhos, distrações carregadas de dopamina, mas e quando nada dessas coisas me alegram? o vazio se torna a saída para tudo, exceto ouvir a mim mesma.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

002: paredes sem cor e palavras cruzadas

 os corredores brancos infinitos sempre dobram para algum lugar com ainda mais quartos igualmente brancos, podendo estar vazios ou acalentando alguém adoecido pela vida. passar entre aquelas portas discretas com números progressivos quase escondidos chega a ser sufocante, sons de máquinas acompanham todos que atravessam o vazio de corredores hospitalares. é diferente de estar na sala de espera.

as cadeiras duras, frias. os cubículos recheados de almas vivas esperando para serem chamadas enquanto alguma doença assola seus dias, são carregados de uma ansiedade tão sufocante quanto precisar cruzar os leitos até chegar no seu. ainda não sei o que me fez ir lá, exceto que minha vó estava naquele lugar.


talvez nem eu e nem ela devêssemos estar encarando paredes vazias. para além do silêncio abastecido pelo som do oxigênio passando, as bipagens constantes, estavam as nossas conversas baixas e risadas. eu chegava com docinhos contrabandeados e palavras cruzadas na bolsa quando saia da aula, se tornou rotina passar naquela pequena mercearia na esquina antes de entrar no hospital. 


eu sentava naquela poltrona nada confortável, da mesma cor que todos os outros leitos. abria um chocolate que se destacava com seus tons alegres e vivos, dividia pedaços com a minha vó e começava mais uma palavra cruzada, buscando respostas nas memórias antigas que eu compartilhava com ela. 


terça-feira, 5 de maio de 2026

001: a cidade que morre.

 a única ponte que separava as cidades parecia balançar com o vento. ela era feita de concreto, uma fundação de décadas em contato com o fundo mais profundo do mar cortante, as poucas cordas metálicas ainda penduradas ao céu restavam como sobreviventes àqueles terremotos estranhos. para quem morava ali, separados de todo o resto, o horizonte parecia aterrorizante, de longe se viam os grandes cogumelos de fumaça surgindo num instante e lentamente dissipando, eles demoravam para sumir e tinha dias que o céu estava repleto deles.

matteo passava suas tardes e noites sentado naquela areia cinzenta. as ondas traziam quase tudo, entulhos apareciam dia sim dia não e as cinzas eram constantes, as chuvas noturnas que costumavam ser o frescor da manhã agora carregavam o peso de carcaças desconhecidas. a janela de matteo acordava com respingos estranhos em tons avermelhados e amarronzados, demorou muito tempo para que ele percebesse que eram os restos das pessoas do outro lado da ponte.


a ventura de morar em civita di bagnoregio consistia unicamente em estar isolados no meio do oceano com apenas uma ponte de ligação, essa que passava a maior parte do seu tempo coberta por profundidades intensas de água. o país inteiro estava em guerra, sendo consumido por fogo e explosões intermináveis, a esperança de um fim não se aproximava e a previsão era de que somente restasse cinzas e ossos, a ganância consumia uma nação inteira.


a cidade que morre era um apelido para esse povo que se perdia em meio às águas. matteo não entendia o porquê de sempre serem colocados assim, ainda mais agora que morrer pelo mar era o que estava salvando cada um deles. as bombas dificilmente chegavam na encosta, derrubaram pedaços da ponte e fizeram tremores derrubar alguns pequenos prédios, mas as pessoas continuavam em pé e as mesas tinham comidas saborosas todos os dias. 


matteo escreveu com os próprios dedos na praia de cinzas: “a cidade que vive.” 

domingo, 26 de abril de 2026

tudo o que vi em abril...

 1. uma mulher tentando alimentar um gato frajola que era estranhamente gordo para ser um simples gato de rua abandonado.
2. o quintal de uma casal meio abandonada, cheio de gramas até metade do portão que tinha cartas e cartas amontadas na caixa de correio.
3. pequenas esculturas gregas de mesa em gesso branco num caminho de entrada no portão do terreno vazio ao lado da loja de carros (a mesma que tem um enorme fusca rosa gritante para vender)
4. o caminho vazio do bloco c tem um fim nas árvores cheias.
5. um carro levando um leão de cerâmica na parte de trás, acho que era para anunciar um dos circos que estão pela cidade nesse mês.
6. um inseto meio estranho, parecia uma barata pequena com manchas brancas pelo corpo marrom, fiquei meio assustada e sai correndo de onde eu estava.

nos caminhos que eu faço (de pé, ou de carro) tenho olhado para tantas coisas que algumas delas ficam apenas para o canto da minha visão... um pouco escondido, coisas que aparecem apenas nos meus sonhos para me lembrar do dia que passou. 


domingo, 19 de abril de 2026

revolte-se! liberte-se!

 a primeira vez que coloquei meus olhos na dischord foi há um ano atrás, poucas pessoas sabiam o que eu tinha recém passado e o que significava para mim estar ali. foram poucas as vezes que eu senti meu coração batendo de novo pela primeira vez, me senti com 16 anos outra vez entrando para algo que faz meu corpo vibrar em alegria. eu carregava um peso muito intenso, uma dor que ardia e tirava minhas vontades... confesso que nos primeiros momentos eu não percebia o que acendia dentro do meu peito, demorou um tempo para eu entender o que acontecia comigo em silêncio.

é difícil para mim ter algum carinho por bandas logo de cara, tenho exigências pessoais que nem eu entendo na maior parte do tempo. posso dizer com a boca cheia sobre o quanto aquele dia salvou minha alma do afogamento, é engraçado perceber um ano depois que ter ido naquele rolê sem pretensão alguma pensando que não seria tão bom quanto as outras vezes que me levaram para sair na cidade, mudou a minha vida por completo. 

ter conhecido quem eu conheci ali, saber que eu teria um lar... da noite em diante, comecei a formar meus pensamentos sobre o quanto eu queria ficar aqui e, depois de um ano, poder acompanhar de perto uma banda que foi um grande fator pela minha ressuscitação é um grande privilégio para mim em muitos aspectos. eu encaro esses momentos com muito mais carinho e amor do que as pessoas percebem, sinto que eu deveria falar sobre isso muito mais... é o que me salva todos os dias.

hoje posso tirar fotos da dischord e compartilhar elas paras as pessoas que gostam tanto do som quanto eu gosto, é uma das coisas que mais me deixa feliz; quase tudo tem me deixado feliz nos últimos dias e esse fato é um dos que mais influência no meu viver. sou grata. aquela noite, há um ano, eu me revoltei e me libertei de coisas que nem eu sabia que me prendiam.



sexta-feira, 10 de abril de 2026

as estrelas e a raiva...

 com as noites de sono mal dormidas, eu consigo sonhar mais frequentemente. não é uma coisa boa, eu gostaria de ter sonhos mais tranquilos e não acordar com o coração quase pulando para fora. alguns momentos até faz sentido eu ter imaginado aquilo, mas tem um tempo que nada tem pé e muito menos cabeça, o pior vem depois na hora de acordar e passar o resto do dia com a sensação de que aquilo foi uma verdade incontestável. é louco.

essa semana tive o desprazer de sonhar com alguém do passado, não sei quem exatamente... é complicado sonhar com pessoas, nunca consigo ver claramente o rosto e no pior dos casos as proporções corporais ficam bizarras ao ponto de virar um terror corporal estressante. enfim, o passado quis voltar como um tormento mental, tentando pregar pegadinhas e me fazer escolher a forma como eu reagiria isso e só me fez perceber que eu não saberia o que fazer, em momento nenhum. foi um pouco engraçado poder comparar as diferentes formas de reação, cheguei a sonhar como seria rever meu pai depois de tanto tempo longe de casa e em nenhuma dessas vezes eu consegui ter um padrão. 

pode ser que meus sonhos estejam me dizendo como eu não posso controlar as coisas e nem sempre tudo que eu imagino pode realmente acontecer, por mais que eu tente. eu até acho interessante, se não fosse pelo sufoco que eu passo com esses momentos, eu guardo essas coisas na memória inconsciente e elas reaparecem durante o dia o dia me assustando...

além dessas coisas, experimentei sonhar com o meu pequeno mundinho outra vez, encarando o meu conforto novamente e dando um abraço naquilo que mais me fazia sentir saudades. tinha tempo que eu não sonhava no céu estrelado, eu pude me colocar na beira do precipício outra vez e encarar o vazio do além depois de ter me despedido desse pedacinho de terra quando assisti, ainda em sonho, a morte. 

recuperar o que eu havia perdido naquele mesmo lugar é recompensador. eu vi o navio voltando, trazendo com ele um rastro de estrelas cadentes e eu pude me lembrar o que me fez escolher o nome desse blog (e projeto), a razão por eu ser apaixonada no que eu faço... eu precisava sonhar outra vez com o meu lugar de tranquilidade. era muito mais do que eu procurava para revigorar um pouco além.

os sonhos dessa semana estavam balanceados entre coisas ruins e boas, eu não consigo dizer qual dali pesava mais na minha cabeça... senti saudades de sonhar com a minha pequena ilha, daquela cortina balançando com o vento debaixo do sol no fim da tarde.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

lucinda querida!

 desde que os vizinhos do lado se mudaram, a população de gatos nessa rua aumentou gradativamente e, acho, que tem dois anos e um pouco desde que a gata frajola lucinda tem frequentado a casa dos meus avós. virou um costume estranho ter ela por aqui todos os dias na hora do almoço e janta, constantemente pedindo um pouco da nossa carne.

isso até o momento que meu vô começou a comprar ração para ela, agora no lugar de pedir por carne ela procura a ração. uma gata bem exigente e engraçada, esperta. a lucinda só come whyskas de carne, se for outra marca e sabor, pode ter certeza que ela vai fingir que nem está vendo.

por mais que o dono dela seja o vizinho, parece que nem saudade de casa sente. todos os dias está por aqui e toda noite quer entrar no meu quarto para passear pela casa, ou ficar na janela olhando o quintal por uns bons e longos minutos. comecei a gostar da companhia, agora não consigo ficar um dia inteiro sem sentir saudade da bixinha. 

tenho pensado na possibilidade de pegar para mim, desde que o verdadeiro pai não se importa com os sumiços e nem alimentar direito tem feito! comprei sachê esses dias, acho que em breve vou buscar uma caminha, alguns brinquedos... não sei se ela vai ficar aqui, mas quero aconchegar a lucinda querida.

ontem tirei fotos dela. estava sentada na janela, olhando o nada.





sentimentos vazios

​ ter dias em que as emoções não aparecem é complicado, parece que estou encarando o mundo com uma sensação estranha... quer dizer, é quase ...