agora eu posso encher a boca e dizer que estou há um mês vivendo outra vez. meu coração tem batido e é estranho lembrar que existem órgãos funcionando dentro de mim, estou tão acostumada com a morte ao meu redor e escrever como se eu não existisse há anos. desde que coloquei meus pés nesse lugar e comecei a construir um novo lar eu entendi que posso respirar sem medo, não vou morrer novamente.
falo isso com certeza, estou exatamente onde eu quero. busquei por isso minha vida inteira inconscientemente e algo em mim estava esperando só o momento certo para abrir os olhos com a fome de um lobo há anos hibernado. tenho algo na minha frente pronto para ser agarrado e é nesse momento que eu deveria funcionar no vapor máximo.
meu cabelo tem crescido e parado de cair aos poucos, meu corpo tem se sentido menos exausto e parece que posso fazer tudo que eu quiser, só basta levantar de onde estou. minha única luta agora tem sido o costume com o nada da morte, o costume da rotina em inércia completa como quem não tinha onde e nem quem para ir.
março veio com chuvas fortes, longas e um pouco sufocantes, as águas inundaram meus sentimentos e terminaram de lavar feridas que eu ainda brigava, assisti do meu quarto a chuva levar embora coisas que eu não lembrava, mas precisei revisitar para me despedir e seguir com o que vinha pela frente, sinto como se tivessem segurado a minha mão para me guiar num extenso túnel.
a felicidade entrou no meu peito, ficou. me sinto eu, por inteira.